quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Sustentabilidade é essencial


Sérgio Esteves é conselheiro do Planeta Sustentável e diretor da AMCE Negócios Sustentáveis
Sustentabilidade é um termo que tem se colocado muito presente no repertório cultural contemporâneo. Flexível, com boa elasticidade no plano da linguagem, ele tanto tem servido para enriquecer a conversa casual das tardes de domingo como para alavancar carreiras ou amparar interesses. Mas haverá aí, nessa noção cotidiana de sustentabilidade, algo mais do que apenas linguagem com boa capacidade de modelagem e adaptação? Haverá substância capaz de induzir inovações e propor transformações estruturais a longo prazo no modus operandi do modernismo, erradicando assimetrias que continuamente nos afligem?

O fato é que, como sociedade, temos avançado pouco em direção a cenários econômicos, sociais e ambientais estruturalmente melhores, mesmo após décadas de iniciativas de mobilização social, mesmo após tantas e repetidas campanhas - dos mais variados motes, de inúmeras ONGs, mesmo com a ampliação dos mecanismos de participação popular e a contundência teimosa do jornalismo documental. Não parecemos avançar para patamares sociais estruturalmente melhores, mesmo articulando melhor o discurso sobre sustentabilidade e aumentando a quantidade de ações dirigidas para os diversos segmentos da sociedade. Talvez porque tudo isso que estamos fazendo seja apenas mais do mesmo. Em outras palavras, temos evoluído em inúmeras frentes com bons retornos de imagem e bônus de consciência, mas a África precisa continuar existindo.

Num plano bem mais simples, por exemplo, diante da "publicidade colorida e esfuziante" das organizações contemporâneas declaradamente envolvidas com sustentabilidade, permanecem algumas questões parcialmente sem resposta: uma que indaga sobre a legitimidade do que estão fazendo, dada a natureza e os contornos estabelecidos por seu mandato social; outra que procura levantar o quanto essas ações, por seu caráter assistencialista e naturalmente continuista podem impedir, ou adiar, transformações sociais necessárias; outra, ainda, que levanta o quanto essas ações de diferentes organizações desarticulam a ação de líderes comunitários naturais, esvaziando o seu poder de mobilização e empurrando-os para a política partidária e suas limitações. No fim das contas, essas e outras questões se propõem a procurar avaliar se e como estamos avançando em direção a uma sociedade mais sintonizada com a qualidade de vida não do indivíduo isolado, entregue à solidão da liberdade moderna, mas do coletivo humano.

A propósito, conseguiremos ainda, após tantas seduções do mercado e das instituições neo-liberais, resgatar o sentido de coletivo e construir novos significados para a ação humana? Será possível alguma interferência no curso apontado por Zygmunt Bauman em que cada vez mais se espera que [o trabalho] seja satisfatório por si mesmo e em si mesmo, e não mais medido pelos efeitos genuínos ou possíveis que traz a nossos semelhantes na humanidade ou ao poder da nação e do pais, e menos ainda à bem aventurança das futuras gerações"? [Modernidade Liquida, Bauman, 2001, Zahar].

Importante, penso, afirmar que há novos significados e novos horizontes para além da habilidade de compor visuais, seguir rituais, concluir tarefas repetitivas, aparentar engajamento, fazer carreira, fazer poupança, agradar os chefes, ensinar em uma boa escola, escrever um livro, plantar uma árvore, fazer caridade, separar o lixo, ter um filho, deixar de fumar, ir à missa aos domingos, falar articuladamente sobre sustentabilidade, respeitar os mais velhos e se aposentar com uma boa história de vida para contar. Importante afirmar isso quando olhamos os investimentos em infra-estrutura não se traduzirem em aumento da felicidade dos povos; ou quando nos damos conta de que o racional rejeita a intuição e a experiência pessoal e o acesso.

A sustentabilidade nos é revelada diariamente por meio de artigos, editoriais, matérias de capa, reportagens, eventos, denúncias do ministério público, outdoors, palestras, passeios no parque, conversas casuais, aulas, discursos, programas de entrevistas, espetáculos beneficentes e inúmeros artefatos publicitários. Ela nos chega por todos os lados, sempre como linguagem acabada, muito pouco no formato de assimetrias qualificadas, que exigem entendimento, mobilização e enfrentamento, ou de significados, que exigem avaliação e posicionamento político; nos chega em fragmentos de falas que vamos superpondo, como substratos de um sambaqui, e que produzem um sentimento impreciso de avanço e um certo formigamento intelectual: parecemos saber o que significa sustentabilidade, nos sentimos esperançosos que estamos progredindo como sociedade e isso parece bastar.

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